Homem que atirou em juiz havia matado parente com tiro e facadas

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Domingos Barros de Sá – que atirou no juiz Carlos Eduardo de Moraes, na segunda-feira (1º) – respondia a um processo na Justiça de Mato Grosso pelo homicídio de um parente, Dimar de Souza Sá, executado a tiros e facadas em 1999.

À Justiça, Domingos já havia confessado o crime, afirmando que havia sido ameaçado pela vítima.

O processo corria na 2ª Vara de Vila Rica (a 1.279 km de Cuiabá), mesmo local onde Domingos cometeu o atentado contra a vida do juiz Carlos Eduardo, no início dessa semana. Na ocasião, Domingos morreu após ser baleado por policiais militares que estavam dentro do Fórum daquela comarca.

No dia 1º de agosto, o Juízo decidiu que o acusado deveria passar por júri popular pelo homicídio. Na ocasião do atentado dentro do Fórum, Domingos teria invadido a sala do magistrado para pressioná-lo a marcar o julgamento com mais rapidez.

O denunciado Domingos Barros De Sá, com evidente animus necandi empunhou a espingarda que estava carregando e […] desferiu um único tiro por trás, à queima roupa, na vítima Dimar de Souza Sá

Segundo os autos do processo, Dimar foi morto por Domingos no dia 16 de maio de 1999, em uma fazenda em Vila Rica.

Ele teria atraído a vítima com o pretexto de resolver uma pendência relativa a divisa de terras que estariam em nome dos dois.

“Após tomarem o café, vítima e denunciado saíram em direção à BR-158, sentido Vila Rica – Antônio Rosa. Percorridos aproximadamente uns 150  metros, o denunciado Domingos Barros De Sá, com evidente animus necandi empunhou a espingarda que estava carregando e, utilizando-se de recurso que tornou impossível qualquer reação ou defesa da vítima desferiu um único tiro por trás, à queima roupa, na vítima Dimar de Souza Sá”, diz trecho do processo.

Em seguida Domingos ainda sacou uma faca que estava consigo e desferiu 14 golpes no parente – sendo 4 no tórax, que resultaram na perfuração de um dos pulmões, e um deles na jugular, considerado o golpe fatal. Dimar morreu no local do crime.

 

Confissão

Domingos foi preso pelo homicídio de Dimar e confessou o homicídio, afirmando que o havia cometido porque era constantemente ameaçado pela vítima.

Segundo ele, a rixa entre os dois teve início após o parente afirmar que ficaria com a parte maior das terras a serem divididas.

De acordo com Domingos, caso ele discutisse sobre isso, Dimar havia jurado matá-lo, razão pela qual decidiu cometer o assassinato primeiro.

“Narra que possuía uma gleba de terra em comunhão com o ofendido, quitando-a integralmente, sendo divida no meio para cada uma das partes, no entanto, relata que quando resolveu vender sua parte na gleba, a vítima não acatou sua decisão, invadindo-a e declarando que possuía a maior parte da propriedade dizendo para o acusado que ‘se eu achasse ruim ia me matar, falava pra todo mundo e falou pra mim mesmo'”, diz outro trecho da ação.

O réu ainda alegou ter desferido as facadas no parente após o tiro por ver que a vítima ainda estava viva. Justificou, ainda, que atirou pelas costas porque o homem se dizia feiticeiro e e afirmava que “bala nenhuma entrava nele pela frente”.

“Em sua defesa, afirma que o acusado dizia publicamente que possuía um ‘livro da capa preta de feitiçaria, e que bala não entrava nele de frente’, motivo pelo qual teria surpreendido a vítima pelas costas. Por fim, alega que após o acontecimento se evadiu do local, indo embora da região alguns dias depois”.

Com isso o juiz determinou que cabia ao Conselho de Sentença a análise mais profunda do homicídio.

TJMT

Juiz Carlos Eduardo de Moraes e Silva

O juiz Carlos Eduardo, que foi baleado dentro do gabinete dele, no Fórum de Vila Rica

“A sociedade é quem deve julgar os crimes de homicídio doloso e somente assim não ocorrerá quando for manifestamente improcedente a imputação, como aquela que se mostra de forma tão clara e precisa que dispense o exercício da tarefa constitucional dos jurados. Existindo dúvidas sobre as circunstâncias que envolveram o fato, impõe-se o julgamento perante o Tribunal do Júri”, diz trecho da decisão.

Atentado contra juiz

Informações levantadas junto aos servidores da Comarca relatam que o juiz Carlos Eduardo de Moraes havia acabado uma audiência de custódia, na tarde de segunda-feira (1º), quando um advogado entrou na sala seguido por Domingos Barros.

Domingos, então, sacou uma arma que levaria escondida e, primeiro, ameaçou promotor de justiça Eduardo Zaque. O magistrado interveio na situação e deu início a uma luta com o agressor, que em seguida atirou.

A polícia, que também estava no local e acompanhou o impasse, solicitou que Domingos largasse a arma, mas não obteve sucesso. Um policial, então, disparou contra o agressor, que morreu no local.

O juiz foi encaminhado para o Pronto-Socorro do Município, que fica próximo ao fórum. Posteriormente, foi transferido para um hospital em Palmas (TO).

Segundo o Tribunal de Justiça de Mato Grosso, ele recebeu alta médica nesta terça-feira (2) e segue em recuperação.

 

Confusão gravada

Um vídeo do circuito de monitoramento interno do Fórum flagrou o momento do ataque ao juiz.

Pela câmera instalada no corredor, é possível ver o momento de pânico que tomou conta do local e ouvir quando os disparos são feitos. O vídeo mostra o momento que o magistrado sai ferido da sala e corre.